quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Casa de ferreiro...

Universidades inovadoras também devem inovar a si mesmas
A universidade pública demanda por uma revisão de valores com o objetivo de atender aos novos desafios relacionados ao seu papel. A estrutura lenta, preocupada com a própria folha de pagamentos e permeada pela procrastinação não pode desertar das reformulações.
Muito distante de uma concepção clichê, é preciso reafirmar o valor do planejamento estratégico e da responsabilidade na gestão dos recursos para acolher os anseios da pesquisa, do ensino, da extensão, bem como das novas conexões que a realidade global requer. E, como ocorre em qualquer organismo vivo, a demanda por mudanças é um pré-requisito para continuar a existir.
Os momentos de crise apenas evidenciam essa obrigação. Se os que “pensam sobre a universidade” – que em princípio deveriam ser inovadores – não apresentam os caminhos, a contabilidade ocupará esse espaço inabitado.
Todos nós sabemos que os números tendem a contemplar a complexidade em outro estilo.Veja-se o caso da preconizada terceirização das atividades-fim; ela espreita os espaços da administração pública e, de tanto espreitar, será convidada a entrar. Essa realidade é estimulada pela própria condescendência dos indivíduos ou a inexistência de sugestões efetivas. Por não se propor soluções permite-se o convencional.
Tal qual ocorre em todas as esferas do Estado, essa proposição baseia-se na ideia de que o termo “inovação da universidade” é algo aversivo, principalmente para os que consideram a instituição pública como um lugar individual, uma propriedade onde os temperamentos são aflorados, onde estabilidade confunde-se com estagnação, instantes em que os pontos de vista são modelos de gerenciamento e opiniões determinam os caminhos ao labirinto do adiamento.
A universidade pública não atingirá a inovação se não iniciar em si mesma essa ação. É preciso abandonar o corporativismo e a apatia, muitas vezes fomentada por uma antiquada estrutura de cargos, promoções que privilegiam o tempo de serviço e nomeações que não se vinculam às competências. Há muito tempo já se afirma que a capacidade de gestão não é nomeada, mas desenvolvida.
As mudanças internas poderão gradualmente facilitar o deslocamento em direção aos melhores conceitos globais de ensino, pesquisa, extensão e de conectividade. Sim, conectividade, esse é o termo evidenciado por Ellie Bothwell – Which universities are the most innovative? – da Times Higher Education and The World University Rankings ao afirmar que as parcerias entre universidades e indústrias são cada vez mais comuns no mundo todo. A propósito, ao citar Robert Tijssen, da Universidade de Leiden, ele afirma que a conectividade universidade-indústria é uma nova missão da universidade.
Essa missão será possível quando os interesses restritos derem espaço à coerência e quando a inovação vencer a inércia.
___________________________
Renato Dias Baptista, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, é professor assistente doutor da Universidade Estadual Paulista, Unesp. E-mail: <rd.baptista@unesp.br>.