terça-feira, 29 de maio de 2012


Os negócios sociais

Existem inúmeras ações organizacionais que visam amenizar os impactos sociais. Isso pode ser exemplificado pelo surgimento dos ‘negócios sociais’. Denominados por muitos como o ‘quarto setor’, os ‘negócios sociais’ são modelos que visam à solução de problemas ou a redução dos impactos sociais e/ou ambientais. Contudo, diferente das típicas ONGs - organizações não governamentais - esses negócios são financeiramente sustentáveis, algo como um fator social, mas sem perder de vista o faturamento justo para todos os envolvidos. Geram formas de renda a todos beneficiários numa estruturação que segue as regras do mercado. Nesse modelo o foco está na ampliação da participação - efetiva e remunerada - de grupos excluídos e não somente do ‘criador’ da ideia.
Claro, como toda ideia nova isso está sujeito a encontrar resistências, afinal há a quebra de alguns paradigmas, já que é uma via diferente no capitalismo tradicional. Entretanto, a cautela sempre é bem-vinda. A ideia tem crescido bastante e por isso também devemos estar preparados para entender e acompanhar as ações, ou seja, reconhecer a veracidade dos negócios sociais e fiscalizar aqueles que poderiam utilizar isso como uma exploração de mão-de-obra ou qualquer outra estratégia mal intencionada. Isso é recorrente nos projetos de responsabilidade social empresarial, visto que ao mesmo tempo em que há empresas sérias, muitas outras que se auto-intitulam socialmente responsáveis, muito pouco ou nada fazem para merecer essa denominação.  Afinal, não se pode ser considerado socialmente responsável apenas por divulgar na mídia a suas ações de distribuição de agasalhos ou de cestas básicas para comunidades de baixa renda. De igual maneira, a denominação de ‘negócios sociais’ não deve ser aleatoriamente criada; ela demanda uma estratégia de administração que envolve intensamente todos os participantes e beneficiários das ações, um lucro justo num trabalho que efetivamente reduza os impactos.
Em países que apresentam grande exclusão social – como o Brasil – espera-se que esse modelo de negócio seja ampliado. Isso deve ocorrer como uma tentativa de transformar o típico assistencialismo em participação nos negócios. Mas a ideia não pode ser considerada uma panaceia, pois ainda haverá uma grande parte da população que precisará das ações filantrópicas. Os enormes gaps não serão solucionados rapidamente em países onde os problemas sociais foram engendrados por séculos.
Nos ‘negócios sociais’ a valoração dos beneficiários deve ser profunda, visto que necessita uma consonância com o pressuposto de envolvimento das comunidades de baixo poder aquisitivo na solução dos problemas e na geração de renda. Enfim, os ‘negócios sociais’ devem possibilitar, além do lucro justo para todos os envolvidos, também a evolução de um modelo de trabalho. É uma nova linha de raciocínio sobre negócios, emprego, renda e solução de problemas sociais e ambientais.
Mas é necessário abalizar o modelo para não correr o risco de se tornar um mero espasmo evolutivo, algo que em algum momento se renderá aos especuladores ou ao capitalismo tradicional.
*Publicado no JC, 30.05.2012

Renato Dias Baptista.  Docente do curso de Administração da Universidade Estadual Paulista (UNESP) campus de Tupã.   E-mail: rdbaptista@tupa.unesp.br