Na ‘Divina Comédia’, de Dante Alighieri, encontramos impulsos para relacionar uma das atuais faces do Brasil. Em ‘Inferno’, a primeira parte, o conjunto de metáforas nos possibilita entender um pouco do espírito humano em tempos em que a justiça protagoniza as mudanças.
Tal qual na obra citada, os resultados de investigações possuem uma precisão matemática que revelam as conexões de uma rede que forma os círculos que conduzem aos pontos mais profundos.
Os envolvidos submergem numa faceta de inocência e afloram diante do ‘ar’ das evidências. O abismo do ‘Inferno’ é revelado a cada círculo; quanto mais profundo, maior é o lodo.
De acordo com Dorothy Sayers, o ‘Inferno’ de Dante Alighieri abriga um espaço aos corruptos. Eles possuem uma característica humana que exige o uso do intelecto. O indivíduo não só procurou o mal por vontade própria, como também o planejou e premeditou o seu ato na sua mente antes de executá-lo.
“Os corruptos tiram proveito da confiança que a sociedade deposita neles.” [Sayers, 49]. Eliminar esse comportamento demanda uma profunda coragem para enfrentar os que preferem ficar nele.
Assim, como ‘Cérbero’, o cão de três cabeças da mitologia grega que guarda a entrada do mundo subterrâneo e não deixa sair quem entra, a corrupção representa seu papel similar. Quando alguém se conecta a ela, a própria rede impossibilita sua saída.
É necessário enfrentar tudo o que possibilita a entrada no mundo do suborno, bem como aquilo que controla a saída dos que entraram. Se poucos conseguiram escapar da guarda de ‘Cérbero’, não é diferente na corrupção que alimenta múltiplas conexões, favores, campanhas, votos, cargos (…). Nessa alegoria, a corrupção representa a imagem do desejo descontrolado, a ambição por milhões, bilhões; ou por centavos, desde que se transformem em milhões.
Mas o corrupto não representa somente valores desviados, sua psique reverbera na sociedade como um modismo e pelo desejo compulsivo. A punição não é suficiente, é preciso gerar a vigilância, não apenas pela ilegalidade, mas pelos efeitos nocivos na sociedade.
O desenredo não será encontrado na conclusão de um processo. A corrupção é um inimigo sempre à espreita e, como fraqueza humana, sempre ressurge. Por isso, é preciso evidenciar o cuidado com a rotulação de heróis, e estes, por sua vez, não se deixarem fascinar. Afinal, o deslumbramento é uma atitude da qual o corrupto mais aspira ver em seus sentenciadores, já que isso seria o primeiro sinal de fraqueza diante das amplitudes da corrupção.


* Texto publicado originalmente no Estadão
* Renato Dias Baptista, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, é professor assistente doutor da Universidade Estadual Paulista, UNESP, Câmpus de Tupã. E-mail: rdbaptista@tupa.unesp.br